Da noite para o dia

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Os “homens da electricidade” andam por cá a fazer umas ligações subterrâneas, bastante mais seguras, para um sítio como este, cheio de tempestades e vendavais. Para isso, tiveram que desligar toda a energia eléctrica da aldeia e ligá-la a um gerador.
A primeira ideia que me ocorreu, foi expulsar os trabalhadores da empresa de electricidade daqui para fora e ficar-lhes com o gerador. Já imaginaste? Nunca mais ter conta da luz? Banir de vez com os terroristas que nos dias mais frios e mais escuros de Inverno nos cortam a luz? Era um sonho tornado realidade! O inicio de uma nova Era de prosperidade e de liberdade.

Um Conto de Natal

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Vou-te contar um segredo: Fui assombrada pelo Espírito dos Natais passados. Ainda estou para saber por que carga de água me veio visitar, logo a mim que sou pouco dada a saudosismos, toda voltada para o presente, e absolutamente contra o consumismo desenfreado e a hipocrisia que caracteriza esta época do ano. Chovia que Deus a dava e fazia um frio de rachar. Resolvemos ficar em casa a fazer a árvore de Natal. Pedi um escadote à vizinha do lado, trepei os degraus todos e tirei as caixas de cartão do armário onde guardo toda uma parafernália de bolas, renas, bonecos de neve, Pais-Natal e afins.

Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro!

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Quando chegou o momento de trocar as sementes, que estavam espalhadas em mesas, dentro de pacotinhos minúsculos, foi a loucura! Imagina-te numa loja de sapatos lindos, únicos, todos do teu número e em exposição e agora imagina poder levar os que quiseres. Foi assim que eu me senti rodeada de tantas sementes, de variedades tão raras, semeadas por tanta gente, mais rara ainda.

Deixem-nos ser felizes outra vez!

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O senhor Barata, com um lápis minúsculo, que vivia arrumado atrás da sua orelha peluda, com gatafunhos de quem não tinha a 4ª classe, fazia todo o tipo de contas de cabeça com uma rapidez de raciocínio que faria corar de inveja qualquer politico.
A liberdade e a Mortágua ainda não existiam, por isso ter uma mercearia como a do senhor Barata, era rentável e até dava para amealhar umas poupanças para um dia mais tarde voltar para a aldeia
Ainda me lembro da minha mãe, que vivia do outro lado da rua, ligar todas as manhãs para o santo do senhor Barata, para encomendar as mercearias e passado dez minutos, lá chegava ele com uma caixa às costas.

Descobri a Kate Moss que há em mim!

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Descobrir a Kate Moss que há em mim!?: “Ó subconsciente deixa-te de delírios e vai mas é tomar um ansiolítico. Vê se te acalmas!” Quando ele estava pronto a emborcar o comprimido mágico caiu-me a moeda: “Subconscienteeeeee… Atira já essa bodega pelo ralo abaixo! Sabes, és capaz de ter razão. Não sou uma top model escanzelada, mas olheiras não me faltam. Básicos, tenho alguns, os jeans não são nada do outro mundo mas com dois ou três rasgões passam bem. Um par de ténis, outro de botins, uns óculos escuros para o sol, umas galochas para a chuva … E está feito! Mereces um beijo na testa subconsciente: CHUAC! ”

A psicóloga com deficit de tudo e os tambores de guerra

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Caiem de pára-quedas psicólogos em todas as escolas do país. Pois é, neste país, não há nada, mas há psicólogos!
Poderia se esperar, que já que se esquecem de Trás-os-Montes por tudo e por nada, que ficássemos de fora deste programa com contornos de Republica Popular da China, mas como a missão destes psicólogos é a formatação, não lhes podíamos escapar. Ou seja, para dar à luz crianças transmontanas, estamos à vontade; com a ambulância em movimento, com a ambulância parada no meio da estrada, à beira do rio Douro, numa gruta, é como quiserem, agora, para os educar, a coisa pia mais fino e tem de vir um psicólogo.

Lágrimas de crocodilo

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As lagrimas curam. Sabias? São poderosíssimas. Mesmo que sejam lágrimas de crocodilo.
Nesta reentre, que não foi tão atribulada como a tua, tive a prova provada. Onde? Precisamente esta manhã, à porta do colégio dos meus filhos quando estava à conversa com outras mães. Um momento raro. Andamos todas num virote. Não é fácil despachar os miúdos, enfrentar o trânsito e chegar ao trabalho a horas. Mas hoje foi diferente. Foi daqueles acasos que não acontecem por acaso. Umas estavam de folga, outras entravam mais tarde. Enfim, tivemos direito a uma pausa para balanço. E que balanço…

O antídoto para o stress e a receita da Felicidade

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Não há um ano que não seja apanhada desprevenida com o inicio das hostilidades da rentrée.
– SALVADOOOOR!!!!!! Já acabaram as férias? As aulas começam amanhã? Despacha-te tenho de encomendar os livros! Onde está a mochila? Está cheia de serras, martelos e pregos porque andaste a construir uma casa na árvore? Vai busca-la depressa, para eu a lavar. Não me digas que começou a chover? Gaita! Já não vai secar. Onde estão as calças de ganga? Já não servem porque cresceste um palmo? Dá cá para eu desfazer a bainha e estica-las para baixo. Uma camisa engomada por favor!!!! Vai lavar as unhas! Andaste a esgravatar na terra? E esse cabelo de menino Mogli que eu adoro, mas que na escola não suportam porque te dá um ar indomável, dá cá a escova, deixa-me pentear-te bolas!

Agarra que é ladrão!

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Tudo começou na tasquinha da Dona Céu. É uma pérola, a senhora. Tem o cabelo branco como a neve, olhos azuis que brilham como duas turquesas, um coração onde cabe este mundo e o outro e uma paciência infinita. Como tem a casa aberta vai para sessenta anos, tudo quanto é viúva, só e desamparada, vai ali carpir as mágoas. Há tempos vi-a com um ar tão cansado que resolvi dar-lhe um conselho: “Dona Céu… Não sei como é que aguenta ouvir tanta desgraça junta. Se fosse a si, dava ali um pulo à farmácia e comprava uns tampões para os ouvidos. Até eu, que só cá venho beber o meu café, fico de gatas…”
Mas pelos vistos o motivo de tamanho cansaço era outro!

In Vino Veritas

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Não vou fazer a figura triste de um produtor de vinho que conheci aqui em Trás-os-montes, que fazia umas zurrapas que acabavam sempre em vinagre, mas que o seu ego desmesurado, que contrastava com seu tamanho rasteirinho, o fazia impingir em todos os jantares. Abria a garrafa com todos os preceitos, demorava tempos infinitos a cheirar a rolha e servia o tal do vinagre. Não contente com isso, passava a noite, a fazer elogios ao vinagre que continuava intacto nos copos dos convidados e inchado como um peru recheado de caganças dizia:
– Já cheirou bem o meu vinho? Não é uma maravilha?