Da noite para o dia

Querida Filipa, Frio de rachar em Lisboa? Que exagero! Eu sei que não há cidade onde gostem mais de brincar ao frio, mas vamos ser honestas. Em Lisboa, basta o termómetro marcar 10º C, para se vestirem como se estivessem na Sibéria. Antes de serem abolidos os casacos de pele, Lisboa, era a cidade com mais casacos de vison por metro quadrado, a coisa era de tal forma, que a certa altura, o cumulo da moda, lá por volta dos anos oitenta, era andar de casaco de vison comprido, com uma t-shirt branca por baixo e umas Levis coçadas pelo tempo e um pouco antes, em 1974, com o pavor de que Portugal se tornasse numa União Soviética, um exército de tias saiu à rua, numa manifestação sem precedentes, contra o novo regime que se tinha estabelecido da noite para o dia e vestidas de casacos de pele e de aneís de brasão e de punho em riste, gritavam: -Se isto não é o Povo, onde é que está o Povo? E tenho ideia que foi na Primavera… Por isso, temo que não sobrevivesses um dia por estas paragens. O Natal aqui, ainda não chegou e posso te garantir que vai demorar a chegar. Primeiro, ainda temos a apanha da azeitona para azeite, só depois, é que entramos em modo de Natal. Há anos, em que queria ser espanhola e só festejar o Dia de Reis, sempre me dava mais um tempinho para me organizar. Mas na aldeia, as luzes da torre da igreja, já piscam, avisando que o Natal se aproxima, só que a azáfama do campo é tanta, que só na véspera, é que aqui,  aderimos ao Natal, para no dia a seguir, voltar para o campo e para os nossos animais. É um evento tão fugaz, que mal dá para tirar a terra que trazemos entranhada nas unhas. A grande novidade por estas bandas, é que os “homens da electricidade” andam por cá a fazer umas ligações subterrâneas, bastante mais seguras, para um sítio como este, cheio de tempestades e vendavais. Para isso, tiveram que desligar toda a energia eléctrica da aldeia e ligá-la a um gerador. A primeira ideia que me ocorreu, foi expulsar os trabalhadores da empresa de electricidade daqui para fora e ficar-lhes com o gerador. Já imaginaste? Nunca mais ter conta da luz? Banir de vez com os terroristas que nos dias mais frios e mais escuros de Inverno nos cortam a luz? Era um sonho tornado realidade! O inicio de uma nova Era de prosperidade e de liberdade. E digo-te já que não era assim uma grande novidade. Quando a televisão chegou a Portugal, em 1956, a nossa aldeia ainda não tinha energia eléctrica. As ruas eram escuras e de terra, as casas de pedra com a “loja” para os animais em baixo e os quartos e a cozinha em cima. E se os pais se entusiasmavam e nasciam filhos demais e não cabiam todos na mesma cama, fazia-se uma separação de madeira, entre os porcos e as ovelhas e ali dormiam, em colchões feitos de palha. Sapatos não existiam e as […]

Um Conto de Natal

Querida Ana Rita, E de repente faz um ano que trocamos estas nossas mensagens! O tempo passa a voar, tão depressa que quando damos conta é Natal. Outra vez… Vou-te contar um segredo: Fui assombrada pelo Espírito dos Natais passados. Ainda estou para saber por que carga de água me veio visitar, logo a mim que sou pouco dada a saudosismos, toda voltada para o presente, e absolutamente contra o consumismo desenfreado e a hipocrisia que caracteriza esta época do ano. Chovia que Deus a dava e fazia um frio de rachar. Resolvemos ficar em casa a fazer a árvore de Natal. Pedi um escadote à vizinha do lado, trepei os degraus todos e tirei as caixas de cartão do armário onde guardo toda uma parafernália de bolas, renas, bonecos de neve, Pais-Natal e afins. Depois de ter posto a árvore de pé e travado uma batalha campal com os nós cegos que tinham atacado a iluminação, fui preparar chocolate quente à cozinha enquanto os miúdos abriam caixa atrás de caixa, encantados com os enfeites. Fizeram vários Natais, mas não importa. Aos olhos do Pedro e do Manel eram novos em folha. – Mano! Olha esta Rena… – Manel, já viste este Pai-Natal. – Encontrei a Estrela! Tão linda… Como já não são propriamente bebés, dei-lhes rédea solta. – Este ano a árvore de Natal fica por vossa conta. A mãe fica sentadinha no sofá e os meninos tratam de pendurar os enfeites onde muito bem entenderem. Se precisarem de ajuda, estou aqui. Ficaram histéricos e eu babada: – Os meus dois amores… Sentada no sofá, com uma chávena quente nas mãos e as pernas cobertas por uma manta fofa, vieram-me à cabeça lembranças de outros Natais. O bacalhau de molho. O peru afogado no alguidar. O Senhor Manel do talho a tocar à porta com o cabrito às costas. A azáfama na cozinha porque ceia que é ceia não se compra, cozinha-se em família. As filhoses a fritar em óleo quente. O cheiro doce a açúcar e canela. Os ovos moles de babar. As rabanas em calda. A mesa da sala. Enorme e coberta por um toalha de linho branco. Imaculada. O serviço de porcelana da minha bisavó. Sempre. O faqueiro de prata. Os copos de cristal que reflectiam a luz das velas. O centro de mesa feito com pinhas e azevinho que íamos buscar à Dona Marta. Uma simpatia. O presépio da minha mãe com dezenas de figuras em miniatura. Simplesmente encantador. A minha avó a comandar as tropas sentada na poltrona. Velhinha com cabelo cor de neve. Os sonhos devorados às escondidas no quarto da empregada. A música a tocar baixinho. O meu pai. Volta e meia passava pela cozinha e discretamente roubava um punhado de pinhões comprados ao peso no Senhor Barata. A coroa gigante pendurada na porta a dar as boas vindas. A campainha a tocar. Tocar. Os tios, os primos. Havia sempre lugar para mais um e nunca treze pessoas à mesa. Não dava sorte, ouvia dizer. Pelo sim, pelo não… – Mãeeeeee! Mãeeeeee! Estás a dormir de olhos abertos?! – Desculpa filho. Conta… – Ficou […]

Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro!

Querida Filipa, Que é feito de ti?Eu sei que a vida nessa Babilónia pode ser uma correria desenfreada, mas estás proibida de deixar de dar noticias ouviste? Por cá, já se instalou o frio, a chuva, o gelo e tudo o que o Inverno traz. As ruas estão desertas e sair com as ovelhas aqui, não deve ser muito diferente do que sair com as ovelhas em “Winterfell”. Se já se vive num isolamento que poucos aguentariam, com os dias frios e curtos, passámos num ápice, a eremitas! Mas no outro dia, fui a um evento que veio romper o silêncio das montanhas que me cercam; o “Encontro Nacional de Troca de Sementes”! Não fazia a mínima ideia ao que ia. Tudo era possível. Desde um encontro de três gatos-pingados, que tratam de um punhado de vasos numa varanda em Loures, passando por mais uns amigos da Mortágua disfarçados de associação ambientalista ou simplesmente, uns bem intencionados que gostam de passear pelo Interior do país, comer bem, conhecer gente nova, tendo como pretexto a troca de sementes. Nada disso.  O encontro foi estrondoso! Juntou para lá de cem pessoas do país inteiro. De todas as idades, todas diferentes, mas todas com um objectivo comum, a Soberania Alimentar! Naqueles dias, assisti a palestras interessantíssimas, que vieram confirmar aquilo que eu tenho testemunhado desde que vim para Trás-os-Montes. As raças autóctones são as únicas que sobrevivem pacificamente nesta geografia caótica, com temperaturas da Idade do Gelo e do Inferno. O antigo olival transmontano, deveria ser considerado “Património da Humanidade” , por dele sair um azeite com carácter e vida própria, tão diferente do dos olivais que usam variedades novas por causa da maldita produtividade… Aprendi que a fruta e os legumes, em 1950, tinham três vezes mais nutrientes do que têm hoje em dia, devido à manipulação e escolha de variedades mais produtivas e ao desgaste do solo, o qual se exige que produza em modo intensivo, sem devolver nada à terra. E finalmente, confirmei, que as plantas, tal como nós e os animais, sentem e comunicam entre si e que as pragas, são soluções perfeitas, que a natureza encontra para problemas criados pelo Homem, que não são eficazes só, porque o Homem a desequilibrou. Não te consigo descrever o avassalador que é ouvir isto num auditório cheio de gente que fez quilómetros para ali chegar. Finalmente ter a confirmação que a minha intuição estava certa. O empolgante que é, trocar conhecimento e informações verdadeiramente úteis com pessoas tão diferentes, mas tão iguais a nós, que chegaram ali, por  outros mil caminhos e que sem pertencerem a nenhum grupo organizado, convergem todos, como por milagre, para o mesmo objectivo. O reconfortante que é, ver o meu filho brincar e falar com crianças que estão a ser educadas com os mesmos valores e as mesmas prioridades. Na Vila, há uma senhora que é considerada um ícone da cozinha desta região. Mais respeitada é impossível! Fez a sua vida entre a cozinha e a Igreja, não se lhe conhecem vícios, nem rabos-de-palha. E todos os anos, lá está, com a sua barraquinha, a vender […]

Deixem-nos ser felizes outra vez!

deixemfelizes150dpi

O senhor Barata, com um lápis minúsculo, que vivia arrumado atrás da sua orelha peluda, com gatafunhos de quem não tinha a 4ª classe, fazia todo o tipo de contas de cabeça com uma rapidez de raciocínio que faria corar de inveja qualquer politico.
A liberdade e a Mortágua ainda não existiam, por isso ter uma mercearia como a do senhor Barata, era rentável e até dava para amealhar umas poupanças para um dia mais tarde voltar para a aldeia
Ainda me lembro da minha mãe, que vivia do outro lado da rua, ligar todas as manhãs para o santo do senhor Barata, para encomendar as mercearias e passado dez minutos, lá chegava ele com uma caixa às costas.

Descobri a Kate Moss que há em mim!

outonocortado

Descobrir a Kate Moss que há em mim!?: “Ó subconsciente deixa-te de delírios e vai mas é tomar um ansiolítico. Vê se te acalmas!” Quando ele estava pronto a emborcar o comprimido mágico caiu-me a moeda: “Subconscienteeeeee… Atira já essa bodega pelo ralo abaixo! Sabes, és capaz de ter razão. Não sou uma top model escanzelada, mas olheiras não me faltam. Básicos, tenho alguns, os jeans não são nada do outro mundo mas com dois ou três rasgões passam bem. Um par de ténis, outro de botins, uns óculos escuros para o sol, umas galochas para a chuva … E está feito! Mereces um beijo na testa subconsciente: CHUAC! ”

A psicóloga com deficit de tudo e os tambores de guerra

psicologa_cortada

Caiem de pára-quedas psicólogos em todas as escolas do país. Pois é, neste país, não há nada, mas há psicólogos!
Poderia se esperar, que já que se esquecem de Trás-os-Montes por tudo e por nada, que ficássemos de fora deste programa com contornos de Republica Popular da China, mas como a missão destes psicólogos é a formatação, não lhes podíamos escapar. Ou seja, para dar à luz crianças transmontanas, estamos à vontade; com a ambulância em movimento, com a ambulância parada no meio da estrada, à beira do rio Douro, numa gruta, é como quiserem, agora, para os educar, a coisa pia mais fino e tem de vir um psicólogo.

Lágrimas de crocodilo

felicidade_cortada

As lagrimas curam. Sabias? São poderosíssimas. Mesmo que sejam lágrimas de crocodilo.
Nesta reentre, que não foi tão atribulada como a tua, tive a prova provada. Onde? Precisamente esta manhã, à porta do colégio dos meus filhos quando estava à conversa com outras mães. Um momento raro. Andamos todas num virote. Não é fácil despachar os miúdos, enfrentar o trânsito e chegar ao trabalho a horas. Mas hoje foi diferente. Foi daqueles acasos que não acontecem por acaso. Umas estavam de folga, outras entravam mais tarde. Enfim, tivemos direito a uma pausa para balanço. E que balanço…

O antídoto para o stress e a receita da Felicidade

antidoto02cortada

Não há um ano que não seja apanhada desprevenida com o inicio das hostilidades da rentrée.
– SALVADOOOOR!!!!!! Já acabaram as férias? As aulas começam amanhã? Despacha-te tenho de encomendar os livros! Onde está a mochila? Está cheia de serras, martelos e pregos porque andaste a construir uma casa na árvore? Vai busca-la depressa, para eu a lavar. Não me digas que começou a chover? Gaita! Já não vai secar. Onde estão as calças de ganga? Já não servem porque cresceste um palmo? Dá cá para eu desfazer a bainha e estica-las para baixo. Uma camisa engomada por favor!!!! Vai lavar as unhas! Andaste a esgravatar na terra? E esse cabelo de menino Mogli que eu adoro, mas que na escola não suportam porque te dá um ar indomável, dá cá a escova, deixa-me pentear-te bolas!

Agarra que é ladrão!

agarraladrao_cortada

Tudo começou na tasquinha da Dona Céu. É uma pérola, a senhora. Tem o cabelo branco como a neve, olhos azuis que brilham como duas turquesas, um coração onde cabe este mundo e o outro e uma paciência infinita. Como tem a casa aberta vai para sessenta anos, tudo quanto é viúva, só e desamparada, vai ali carpir as mágoas. Há tempos vi-a com um ar tão cansado que resolvi dar-lhe um conselho: “Dona Céu… Não sei como é que aguenta ouvir tanta desgraça junta. Se fosse a si, dava ali um pulo à farmácia e comprava uns tampões para os ouvidos. Até eu, que só cá venho beber o meu café, fico de gatas…”
Mas pelos vistos o motivo de tamanho cansaço era outro!

In Vino Veritas

inwine_cortada

Não vou fazer a figura triste de um produtor de vinho que conheci aqui em Trás-os-montes, que fazia umas zurrapas que acabavam sempre em vinagre, mas que o seu ego desmesurado, que contrastava com seu tamanho rasteirinho, o fazia impingir em todos os jantares. Abria a garrafa com todos os preceitos, demorava tempos infinitos a cheirar a rolha e servia o tal do vinagre. Não contente com isso, passava a noite, a fazer elogios ao vinagre que continuava intacto nos copos dos convidados e inchado como um peru recheado de caganças dizia:
– Já cheirou bem o meu vinho? Não é uma maravilha?