Agarra que é ladrão!

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Querida Ana Rita,

Adorava conhecer esse homem que serve zurrapas convencido que está a abençoar os convidados com o néctar dos Deuses. E confesso que adorava mais ainda, estar aí só para ver a cara dele quando lhe disseste que o vinho, de que tanto se orgulha, só serve para temperar salada. Diz-me que ficou branco como a cal, limpou a boca ao guardanapo, tossicou para preencher um silêncio de cortar à faca, esvaziou o copo de só um trago, gabou o manjar, ignorou-te o resto da noite e provavelmente para o resto da vida! Foi, não foi!? Típico. A sinceridade tem um sabor avinagrado no meio de tanta hipocrisia.

E se te contar que por aqui andam todos com os azeites por causa de um queijo de cabra!?

Tudo começou na tasquinha da Dona Céu. É uma pérola, a senhora. Tem o cabelo branco como a neve, olhos azuis que brilham como duas turquesas, um coração onde cabe este mundo e o outro e uma paciência infinita. Como tem a casa aberta vai para sessenta anos, tudo quanto é viúva, só e desamparada, vai ali carpir as mágoas. Há tempos vi-a com um ar tão cansado que resolvi dar-lhe um conselho: “Dona Céu… Não sei como  aguenta ouvir tanta desgraça junta. Se fosse a si, dava um pulo à farmácia e comprava uns tampões para os ouvidos.  Até eu, que só cá venho beber o meu café, fico de gatas…”

Mas pelos vistos o motivo de tamanho cansaço era outro: “Ai menina… Com elas posso eu bem. Entra-me tudo por um ouvido e sai-me por outro. É que já nem as oiço. Sabe lá o que me aconteceu. Estou doida, doida de todo. Nem dormi. Ontem fui ali abaixo e deixei a Dona Tininha a tomar conta da loja. Demorei dois minutos. Dois minutos. Nem um segundo a mais. Quando voltei, encontrei a mulher com um queijo de cabra na mão!? Mas era um queijo com categoria, não pense que era uma porcaria qualquer! Quando vi aquilo, perguntei quem é que lho tinha oferecido. Sabe o que me respondeu? Que já não se lembrava! Talvez a Maria. Talvez… ”

A Dona Tininha é, para não variar, uma viúva triste. Mora sozinha e não tem um único parafuso naquela cabeça. Nem um. Sempre que vou à rua com os miúdos e tenho o azar de me cruzar com ela,  já sei o que vai sair daquela boca desdentada: “São seus? Tão lindos! Como é que se chamam? Eu também tenho um filho. O meu Cajó, que é formado em engenharias. E também tenho um neto. O meu Tonito, que anda na Escola Francesa? Deus a abençoe e saúde para os criar. É o que lhe desejo. Meus ricos meninos…” E vai de aperta-los, bem apertadinhos até ficarem roxos e com vontade de a esganar. Não conseguem fugir. Ainda.

Ora, careca de saber que a cabeça da Dona Tininha é um buraco negro de esquecimento e lembranças embrulhadas, a Dona Ceu resolveu arregaçar as mangas para se desembrulhar do enigma do queijo de cabra: “Ora diga-me a menina: Por que carga de água havia a Maria de oferecer um queijo daqueles, que custa um dinheirão, a uma zaranza? Tinha que tirar a coisa a limpo, não acha? Deixei, mais uma vez, a loja por conta da Dona Tininha e fui a correr ver da  a Maria. Sabe o que me disse? Que não lhe tinha dado queijo nenhum, até porque não pode com a mulher nem com molho de tomate. Eu sabia! Pois acredita que, quando aqui cheguei, estava a tonta da Dona Tininha plantada atrás da bancada agarrada a um facalhão!? Dei um grito, agarrei no diacho do queijo, enfiei-o num saco e deitei-o no lixo. Pronto. Assunto arrumado. Ela deve ter ficado furiosa comigo, mas quero lá saber. Cá para mim, foi um gatuno que aqui entrou. Ofereceu-lhe aquela rica prenda para lhe amaciar o pelo e conseguir deitar a mão à minha caixa registadora. Não sei porquê, mas ninguém me tira isto da ideia: Anda por aí um ladrão à solta! Vá por mim, menina. Tenha cautela. Tenha muita cautela…”

Pois foi precisamente nessa altura, que aparece a Dona Odete. Outra viúva triste. Vinha de chinelos, de robe e lavada em lágrimas: “Ó Dona Ceu acuda-me… Acuda-me, que se me foram setenta euros à vida. Setenta euros. Mas por que raio fui eu abrir a porta aquele homem!? Ele tinha tão bom aspecto, era tão educado que me deu a volta e eu caí que nem um pato. Disse que vinha entregar uma encomenda para o meu filho, pediu-me o dinheiro e eu fui na cantiga do bandido.  Já me fartei de ouvir do meu Carlitos. Paguei uma fortuna por um mísero queijo. Sim, por este queijo de cabra. Este. Mas por que raio fui eu abrir a porta aquele homem!?”

Juro que não me deram nenhuma zurrapa a beber. Não. Só tomei um café, e sem cheirinho. Agora a Dona Céu e a Dona Odete, ainda devem estar de ressaca.

Não eras tu que dizias que com papas e bolos se enganam os tolos!? Pois te garanto: Com queijo de cabra também! Beijos.

Filipa

Autora

Filipa Serejo

Não foi por acaso que nasci em Lisboa, quanto mais conheço o mundo menos me imagino a morar noutro lugar. Tenho uma família linda, amigos maravilhosos e uma vida profissional preenchida. Sou jornalista. Também larguei os saltos altos por causa dos miúdos, mas continuo a ser fã de sapatos, roupa bonita e gente gira. Adoro o século XXI porque o presente é o momento certo. Desisti de correr atrás da perfeição. Colho simplesmente o que a vida me dá. Sou feliz assim e ponto.

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