O antídoto para o stress e a receita da Felicidade

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Querida Filipa,

Pronta para a rentrée?

Claro que não! Ninguém que seja de carne e osso pode estar pronto para esta violência que nos sacode para a realidade e nos empurra para o caos.

Não há um ano que não seja apanhada desprevenida com o inicio das hostilidades da rentrée.

SALVADOOOOR!!!!!! Já acabaram as férias? As aulas começam amanhã? Despacha-te tenho de encomendar os livros! Onde está a mochila? Está cheia de serras, martelos e pregos porque andaste a construir uma casa na árvore? Vai busca-la depressa, para eu a lavar. Não me digas que começou a chover? Gaita! Já não vai secar. Onde estão as calças de ganga? Já não servem porque cresceste um palmo? Dá cá para eu desfazer a bainha e estica-las para baixo. Uma camisa engomada por favor!!!! Vai lavar as unhas! Andaste a esgravatar na terra? E esse cabelo de menino Mogli que eu adoro, mas que na escola não suportam porque te dá um ar indomável, dá cá a escova, deixa-me pentear-te bolas!  Recuso-me a cortar essas madeixas loiras e ter um filho com cara de nerd. Não, a mãe não é doida, só está doida porque as férias acabaram e ninguém me avisou.

Mas não fica por aqui.

– ZÉEEEEEEE!!!!! Já acabaste de lavrar? Temos de ir buscar as sementes! Mais uma semana e começa a ser tarde demais para o cereal! Arranjaste as borrachas da porta do carro? É que começou a chover e hoje quando fui ao pão, parecia que ia num submarino torpedeado. Amanhã vou de escafandro. Vem depressa! Temos de arrumar a lenha e o resto do trigo, vai ficar tudo molhado. E os figos e as amoras? Não tivemos tempo de os apanhar, vão apodrecer com a chuva. Adeus compotas… Caramba, não arranjámos o telhado da capoeira e agora chove lá dentro. E as pinturas meu Deus… Ainda não consegui pintar os tectos e não sobrevivo a mais um Inverno nesta casa com os tectos cinzentos do fumo da lareira. SOCORRO!!!!!

Agora explica-me, para que é esta correria toda? Não será possível arranjar uma forma mais suave de  fazer as coisas?

Mas será assim em todo o mundo?

Descobri que não. Aliás, estou cada vez mais convencida que este stress compulsivo, é característico dos povos deprimidos e sem qualidade de vida.

Já ouviste falar da nova filosofia de vida que veio da Dinamarca? Chama-se “Hygge”, pronuncia-se “hue-guhe significa qualquer coisa como, sentimento de conforto e satisfação através dos pequenos luxos e prazeres da vida em família.

Não tem nada a ver com grandes gestos solidários que servem interesses económicos, o soturno politicamente correcto ou a perspectiva de viver num mundo globalizado, em que somos obrigados a sofrer, por cada desgraça, que acontece a cada minuto, em cada canto do mundo, através de meios de informação completamente manipulados. É precisamente o contrário. É a reacção a esta ditadura das desgraças, da depressão massificada e de querer resolver os problemas de quem não conhecemos, ao mesmo tempo que ignoramos os problemas dos que estão mesmo ao nosso lado, tornando todo o processo altamente ineficaz.

Por exemplo, a vizinha de cima ficou viúva com oito filhos. Como é parecida com a Monica Belluci, ninguém lhe dá emprego desinteressadamente e ela opta por ficar em casa a fazer arranjos de costura, que mal lhe dão para única refeição que ela e os filhos têm por dia. Entretanto a vizinha de baixo, uma velha, que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, ignora-a ostensivamente, porque uma mulher bonita, tem de ser sempre uma rameira. Tem a arca congeladora a abarrotar de comida, no entanto por preguiça, a sua refeição consiste, de um chazinho e uma torrada. Uma grande parte do seu dinheiro é gasto em obras da Igreja para “pobrezinhos”, que têm todos RSI e brutos telemóveis, mas que não têm vergonha nenhuma de pedir e de se mostrarem submissos e agradecidos, fazendo sentir a velha senhora, como que um anjo na terra com lugar cativo no Céu.

Esta senhora não é nada“Hygge”, por isso, aqui vai um gigantesco cartão vermelho para ela!

Trendy, estar na moda, estar à frente, o que lhe quiseres chamar, hoje, é surpreendentemente, voltar atrás, em busca do equilíbrio natural que a vida moderna e a globalização reduziram a cinzas.

Encontrando-se profundamente, tristes, solitários e em desequilíbrio, eis que surge o “Hygge”, o antídoto da vida moderna e um óptimo manual de sobrevivência para o Inverno que se aproxima!

Jantares intermináveis com familiares e amigos que nos são queridos, onde a empatia é o prato principal. Lareira e velas acesas e uma garrafa de licor de bagas silvestres em cima da mesa, evocam sentimentos de felicidade e de conforto.

Fazer pão com as crianças, é das coisas melhores e mais reconfortantes, para já não falar do cheiro inconfundível de um pão acabadinho de sair do forno que se espalha pela casa.

Uma chávena de chocolate quente, umas meias tricotadas à mão e um sofá, são o ponto de partida para uma conversa pela noite dentro com aquele rosto amigo e querido que nos reconforta sempre.

Um passeio pela montanha num dia frio e ventoso não pode ser mais “Hygge”. Um cachecol de pura lã à volta do pescoço e o vento gelado a bater na cara, crianças a correr e cães a ladrar e pelo braço, o homem da nossa vida. E de volta a casa, porque não devemos renunciar ao que nos dá prazer, uma fatia de bolo de chocolate, que à primeira garfada se derrete por dentro e nos aquece o coração.

Uma manta escocesa, uma lareira, chuva e um bom livro. Haverá coisa melhor do que o cheiro de um livro? Tocar as folhas com os dedos, reler parágrafos inteiros, poder folhear, sentir, guardar junto ao coração. E a seguir ao jantar? Uma partida de xadrez ou um jogo de cartas em família.

Não há dispositivo electrónico que supere tanta emoção, por isso ser “Hygge”é fazer um uso mínimo de todas essas parafernálias, desliga-las, para nos voltarmos a ligar à vida…

 “Hygge”, é uma ode à felicidade, um desafio a desfrutar cada momento, a necessidade de voltar a criar laços com aqueles que amamos, de voltar a organizar-mo-nos em tribos onde nos reconhecemos e somos reconhecidos, mas é acima de tudo um grito de resistência contra tanta anormalidade, e ao muro que se ergeu entre o Homem e tudo o que é natural.

Com tanto prazer e felicidade correremos o risco de nos tornarmos egoístas e o mundo piorar ainda mais? Não creio.

Uma vez perguntaram à Madre Teresa de Calcutá o que poderíamos fazer para promover a Paz mundial, ao que ela respondeu:

– Vão para casa e amem as vossas famílias.

Eu acrescentaria, amigos, umas belas jantaradas, alegria de viver e aí tens; a Receita da Felicidade!

 

Ana Rita

 

 

Autora

Ana Rita Bivar

Nasci por engano em Lisboa, onde trabalhei em restaurantes, lojas de decoração, eventos e como relações públicas. Fui para o Alentejo em busca de um sonho, mas foi em Trás-os-Montes que o realizei. Hoje, larguei os saltos altos e sou pastora e agricultora e vivo no lugar mais bonito do mundo, onde vejo as águias de cima e bebo a água que nasce nas fragas da montanha. Acredito profundamente na autossuficiência e que o mundo atingiu a sua perfeição máxima no século XIX, para onde pretendo voltar o mais depressa possível.

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