Deixem-nos ser felizes outra vez!

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Querida Filipa,

Isto está demais! Este mundo está-se a tornar incomportável. Será possível deixarem as pessoas respirar?

Está tudo com amnésia ou só eu é que me lembro da vida descomplicada que todos levávamos há umas décadas atrás?

Podia-se comer tudo e mais alguma coisa. Agora? Bem… comer tornou-se um acto do mais arriscado que há.

– Ali não toques, tem gorduras.  Nem penses! Está coberto de açúcar! Olha as salmonelas! Olha o colestrol! Olha os químicos!!!

A verdade, é que uma simples ida ao supermercado, passou de um programa descontraído, a ser um exercício exaustivo e tenebroso que passa por inspeccionar todas as etiquetas e códigos de barras:

-Hmmm… que lulas tão baratas! Com lulas não há que enganar, são o que são não é?

Não, são do Oceano Pacifico, o que significa que são radioactivas! Lembras-te de Fukushima? Eu  lembro. Por isso, lulas do Oceano Pacifico, não são um assunto nada pacifico para mim.

– Hmmm… Que belas fatias de fiambre fininhas e de peru! Ninguém pode dizer que não são saudáveis, pois não?

Pode! Ao leres a etiqueta dos ingredientes, a palavra peru, se é que lá está, vem acompanhada de um testamento de E(330), E (450), E(281) e por aí fora e quem diz o peru, diz praticamente TUDO o que consumimos, nem os iogurtes e a papa de bebé escaparam a esta contaminação. Incrível não é?

Podemos sempre optar pelos produtos biológicos, que são óptimos, especialmente se nos conseguirmos alimentar de uma folha de alface por dia e tivermos só um filho, que só vem a casa para dormir. Caso contrário, se alimentarmos a nossa família com produtos biológicos comprados, acabamos por jantar à luz das velas, não por ser mais romântico, mas porque nos cortaram a luz, porque o dinheiro não chega para tudo.

Lembras-te do senhor Barata? O dono da mercearia lá da rua? Com um bigode espesso de Pancho Villa, que mesmo assim não chegava aos calcanhares do da mulher dele?

Esse sim, é que tinha produtos biológicos a preços normais. Mas também, nessa altura a agricultura ainda era toda biológica.

Eram uma dupla fantástica! Vindos de uma aldeia que ninguém queria saber o nome, porque tal como hoje, Portugal, era Lisboa e Porto, tinham aquele estabelecimento imundo, que alimentava um bairro inteiro. Com galinhas a passear lá dentro, moscas a voar por todo o lado, sim, porque no nosso tempo havia o dobro dos insectos e ninguém lhe passava pela cabeça exterminá-los. Havia a P.I.D.E., mas não havia a A.S.A.E. As alfaces vinham com lesmas, as couves com terra e os ovos com penas e cocó. E pasme-se, crescemos bem e sadias!

A contabilidade do senhor Barata era feita em bocados de folhas de papel amarelecidas e cheias de dedadas de gordura, é que a mulher passava o dia a fritar coisas atrás de uma cortina de chita de Alcobaça e nem um, nem outro, tinham um pingo de colesterol, porque ainda não existiam os nutricionistas.

O senhor Barata, com um lápis minúsculo, que vivia arrumado atrás da sua orelha peluda, com gatafunhos de quem não tinha a 4ª classe, fazia todo o tipo de contas de cabeça com uma rapidez de raciocínio que faria corar de inveja qualquer politico.

A liberdade e a Mortágua ainda não existiam, por isso ter  uma mercearia como a do senhor Barata, era rentável e até dava para amealhar umas poupanças para um dia mais tarde voltar para a aldeia

Ainda me lembro da minha mãe, que vivia do outro lado da rua, ligar todas as  manhãs para o santo do senhor Barata, para encomendar as mercearias e passado dez minutos, lá chegava ele com uma caixa às costas.

No dia do 25 de Abril, ainda ninguém tinha percebido o que se estava a passar, já estava o senhor Barata a tocar-nos à porta. A rua, estava cheia de militares cabeludos e barbudos que não eram de confiança e o senhor Barata decidiu ludibriar o inimigo e saltou, tal Homem-Aranha, os muros dos quintais vizinhos e apareceu discretamente e em segredo absoluto como  nosso salvador, cheio de mantimentos…pela porta das traseiras.

O correio era outra coisa maravilhosa, só trazia boas notícias! O postal de parabéns do meu bisavô com uma letra aristocrática mas com uma mensagem sempre calorosa e com uma nota de quinhentos escudos, chegava todas as manhãs no dia dos meus anos. A carta da Ana Maria, a nossa antiga empregada, que entretanto emigrou para França onde prosperou e foi feliz para sempre. Um postal da minha avó, das Termas de Vidago, onde o mês de Setembro corria sempre tranquilamente. Agora, só recebemos avisos e contas, ao ponto de desejar viver em parte incerta.

Os telefones funcionavam perfeitamente, a linha nunca caía e era normal estar três horas ao telefone. Nas aldeias, levantava-se o gancho do telefone e logo aparecia uma telefonista para fazer a ligação, ouvia as conversas todas, mas ninguém se importava, porque era apenas uma telefonista, não era o FBI.

E o céu? Lembras-te do céu quando éramos pequenas? Era nítido, azul-turquesa com nuvens brancas como algodão. No outro dia, o meu filho mais novo fez um desenho e o céu não tinha as nossas nuvens, tinhas linhas de rastos químicos….

As pessoas casavam e tinham filhos e festejavam as bodas de ouro e viviam até aos cem anos. Agora? Nem engravidar conseguem, quanto mais casar… É da alimentação? É do stress? É de não se sentirem felizes.

Não demorou muito tempo para que tudo começasse a mudar, ainda éramos felizes, mas a mudança era irreversível e aos poucos e poucos, como num espectáculo de vários palcos, os holofotes que os iluminavam foram se apagando e fizeram desaparecer todas estas personagens reconfortantes da nossa vida.

Um a um, desapareceram como por magia, para darem lugar a um mundo a preto e branco, cheio de sinais proibidos, deveres e obrigações, uma rota definida à nascença, com um precipício ao fundo.

Quero o senhor Barata e a sua mercearia imunda de volta, a caixa do correio cheia de boas noticias, exijo um telefone fixo com fios que me obrigue a estar sentada três horas a ouvir nitidamente a voz daqueles que amo, festas de bodas de ouro e bolos de anos com cem velas e um céu azul turquesa com nuvens de algodão, que me faça respirar fundo e ser FELIZ!

 

Ana Rita

 

Autora

Ana Rita Bivar

Nasci por engano em Lisboa, onde trabalhei em restaurantes, lojas de decoração, eventos e como relações públicas. Fui para o Alentejo em busca de um sonho, mas foi em Trás-os-Montes que o realizei. Hoje, larguei os saltos altos e sou pastora e agricultora e vivo no lugar mais bonito do mundo, onde vejo as águias de cima e bebo a água que nasce nas fragas da montanha. Acredito profundamente na autossuficiência e que o mundo atingiu a sua perfeição máxima no século XIX, para onde pretendo voltar o mais depressa possível.

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