Descobri a Kate Moss que há em mim!

outonocortado

Querida Ana Rita,

Se tivesse uma parteira no bolso enviava por correio azul, mas infeliamente não tenho…

Agora, se te faltarem lenços de papel ranhosos, calhaus em miniatura, galhos afiados, pinhas em formato mini, ou as primeiras folhas deste Outono, não te acanhes que a minha mala está cheia de tesouros: “Mãe guardas-me isto, mais isto, e istoooooo. É tão lindo, por favorrrr!!!” Uma canseira…

O Pedro e o Manel não param um segundo. São hiperactivos? Não! São crianças… Gostam de correr, saltar, trepar às árvores, construir tocas atrás dos arbustos. Adoram aquele cheiro a liberdade que dá asas aos sonhos. Sentem orgulho em mostrar a feridas nos joelhos quando se estatelam no chão. Acima de tudo: Nunca duvidaram do amor incondicional e firme de uma mãe que só lhes pede uma coisa: SEJAM FELIZES!!! E podes crer que são. Cada um à sua maneira…

O Manel decretou que quando for grande vai tocar viola na rua e ganhar muitas moedas. Menos mal, podia desejar ser um homem estátua e estava frito. O Pedro pediu um arranhador para o Pantufa pelo aniversário. Mal o menos, podia ter pedido outro gato e quem estava frita era eu.

Imagina se fossem observados por essa essa tua psicóloga de serviço!? A mulher dava-me um raspanete de sete em pipa ou mandava-me internar num hospício: “A senhora não tem vergonha na cara? Está a criar um delinquente que vai acabar a pedir esmolas e um mártir que vai acabar por ser uma vítima da sociedade!”

Deixem-nos ser mães à séria e faremos milagres! Sabes qual foi o meu último? Pregar botões, remendar buracos e descer bainhas. Não posso dizer que adoro, mas também não é um bicho-de-sete-cabeças. Faz-se bem. Que remédio…

Os miúdos, que nunca me tinham visto pegar numa agulha, ficaram completamente banzados: “Mãe tu também sabes cozer!?” Fiquei inchada como um peru: “Hum, hum…Tive que aprender. Quando era pequenina e vivia na casa da avó, tínhamos uma costureira que se chamava Dona Lina. Era ela que fazia a roupa, a minha e a dos tios. Passava os dias a dar ao pedal na máquina de costura. Nunca abria a boca. Entrava muda e saia tão calada que nós achávamos que ela tinha a língua cosida. Só nos chamava quando as saias e os calções estavam quase prontos. Tinham alfinetes espetados nas bainhas que nos picavam as pernas todas. Fugíamos dela como o diabo da cruz. Claro que a mostrenga ia fazer queixinhas à avó e nós ficávamos de castigo. Todos. Aquela mulher era um terror. Metia medo ao susto… Um dia o tio Manel, que era levado da breca, resolveu trancar a Dona Lina no quarto da empregada e atirar a chave pela janela. Ficou tão furiosa que até fumo pelo nariz deitava!”

Eles adoram ouvir estas estórias que passaram à história nas nossas vidas. E encostam-se a mim… Que não vivi cem mil anos, nem nasci para ser a Costureirinha da Canção de Lisboa: “Ai chega, chega, chega, chega a minh agulha. Afasta, afasta, afasta, afasta o meu dedal…” Nem é bom pensar.

Basta!

Atirei a roupa toda para o cesto, abri o guarda-fato, respirei fundo e pensei: “É agora que te vais livrar desta porcaria toda! Não mereces andar vestida com trapos e farrapos.” Foi uma limpeza. Uma razia total. De tal forma que, quando dei conta, tinha meia dúzia de peças penduradas nos cabides e uma pilha de roupa velha em cima da cama. Tão velha que nem para acender a tua lareira servia. Fiquei em pânico: “Dona Lina volte, está perdoada! Não tenho nada para vestir. Como é que eu vou sair à rua? Alguém me diz?”

Pois acreditas que o meu subconsciente falou!? Falou e disse: DESCOBRE A KATE MOSS QUE HÁ EM TI!

Descobrir a Kate Moss que há em mim!?: “Ó subconsciente deixa-te de delírios e vai mas é tomar um ansiolítico. Vê se te acalmas!” Quando ele estava pronto a emborcar o comprimido mágico caiu-me a moeda: “Subconscienteeeeee… Atira já essa bodega pelo ralo abaixo! Sabes, és capaz de ter razão. Não sou uma top model escanzelada, mas olheiras não me faltam. Básicos, tenho alguns, os jeans não são nada do outro mundo mas com dois ou três rasgões passam bem. Um par de ténis, outro de botins, uns óculos escuros para o sol, umas galochas para a chuva … E está feito! Mereces um beijo na testa subconsciente: CHUAC! ”

E foi assim, num momento de profunda introespecção, que criei todo um género: Mãe à séria versão urbana. Achas que estou doida? Que não te passe tal coisa pela cabeça! Os psicólogos podem cair de paraquedas em Trás-os-Montes, mas em Lisboa custam os olhos da cara. Não me posso dar a esse luxo. Cruzes…

Agora tenho mesmo de ir! O Pedro acabou de colar uma pastilha elástica ao cabelo e está aos guinchos no sofá. Isto está bonito, está… Mais um milagre. Tens a certeza que a ritalina faz assim tão mal às criancinhas?

Filipa

Autora

Filipa Serejo

Não foi por acaso que nasci em Lisboa, quanto mais conheço o mundo menos me imagino a morar noutro lugar. Tenho uma família linda, amigos maravilhosos e uma vida profissional preenchida. Sou jornalista. Também larguei os saltos altos por causa dos miúdos, mas continuo a ser fã de sapatos, roupa bonita e gente gira. Adoro o século XXI porque o presente é o momento certo. Desisti de correr atrás da perfeição. Colho simplesmente o que a vida me dá. Sou feliz assim e ponto.

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