In Vino Veritas

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Querida Filipa,

Muito me contas dessa velhinha Lisboa que agora querem vender como nova. Lisboa, está como aquelas mulheres que só saem à rua maquilhadas e esterlicadas numa roupa dois tamanhos abaixo e que só se podem ver de um certo ângulo, quando a luz bate de maneira a que não se vejam as mazelas do tempo. Está cada vez mais bem conservada, mas com tantos arranjos, mataram-lhe a alma. Folgo em saber que além da Lisboa para turista pagar e ver, a Lisboa do Vasco Santana ainda persiste.

Aqui começaram as vindimas!

E quase que te consigo ouvir dizer:

-Como é viver na terra do vinho?

-É muito bom,obrigado!

-Mas como foi chegar à terra do vinho?

-Uma desilusão enorme.

Eu sei que a minha bitola era alta. O meu desconhecimento total do Douro e alguns filmes incontornáveis como “A good year” com o inconfundível Russell Crowe, alimentaram o meu imaginário até ao limite.

Quando aqui cheguei, esperava por isso um mundo perfeito.

Vinhas alinhadas à régua, a servirem de moldura a casas centenárias, soberbamente decoradas e habitadas por gente profundamente civilizada e com um amor genuíno à terra.

Tinha esta história do vinho, em tão boa conta, que nos meus devaneios, até imaginei os autóctones de boina e baguette debaixo do braço a deslocarem-se de bicicleta e a dizerem:

Bonjour monsieur le Comte!

As mulheres, vestiam-se todas como nos anos quarenta e até oficiais alemães do mais civilizado que há, se viam espalhados pelos vários bistros da vila.

Estás a imaginar o tamanho da decepção que me esperava não estás? Também quem me manda a mim, ser assim…

Aterrei num Portugal do Dom João VI, que não sei se sabes, andava com pernas e asas de frango dentro dos bolsos, assim como quem anda com uns rebuçados. Apesar deste rei não ter reinado há muito tempo, em relação ao resto do mundo, é a mesma coisa que dizer; Idade Média!

As vinhas, mantidas a custo, geridas por caseiros analfabetos que pulverizam o ano inteiro com herbicida tudo o que mexe. Casas a cair de podre com decorações obsoletas e austeras, habitadas por provincianos decadentes.

Com excepção de alguns produtores de vinho, que se contam pelos dedos de uma mão, e que sabem o que fazem e que não dão confiança a ninguém e que têm o mérito de manter a boa imagem do Douro, tudo o resto, é para esquecer.

Mas não me dei por vencida e foi quando cheguei, a este cantinho de Trás-os Montes, que, sem devaneios, consegui encontrar resquícios intactos de uma região de verdadeiros vinhateiros.

Aqui, na minha aldeia, à beira deste Douro selvagem, não se faz vinho por cagança nem por dinheiro, faz-se vinho, por amor à terra e à tradição!

E isso mexe comigo.

A vontade de fazer vinho e fazer parte deste círculo restrito de sabedoria ancestral tomou conta de mim e não descansei, enquanto não consegui a receita verdadeira de fazer vinho, sem sulfitos e sem truques. Apenas com as uvas de sabor moldado pelo clima agreste e a intuição de quem o faz.

Faz precisamente um ano, que me lancei nessa aventura fascinante do vinho.

Colhi as uvas do meu quintal, pisei-as, dia após dia. Medi o grau do açúcar e do álcool e aguardei pela fermentação.

Fazer vinho, é um acto de Fé, uma prova de amor, em que a persistência e a constância decidem o resultado final.

Todos os dias pela manhã, a  morrer de frio e meia a dormir, lavava os pés com água e enfiava-os naquela mistura densa de uvas. Pisava, pisava e tornava a pisar. Repetia o ritual três vezes ao dia sem vacilar e foi absolutamente avassalador, vê-lo a nascer e a começar a respirar.

Espreitava-o pela fresta da porta várias vezes e sofria quando o tempo aquecia demais e acelerava a fermentação ou as noites esfriavam demais e paravam todo o processo. São essas oscilações que definem o resultado final e novamente, como tudo o que faço ultimamente, fiquei presa e dependente dos caprichos da Natureza.

Quem me deu a receita do vinho, foi o padeiro da aldeia. Deu-ma, com a mesma naturalidade de quem dá a receita de um bolo e aconselhou-me a escrever um diário que te vou transcrever só para teres uma ideia da profundidade disto:

– Quinto dia, arrancou a fermentação. Já cheira e tem cor.

-Oitavo dia, a temperatura desceu e parou a fermentação temos que aguardar…

-Nono dia, a noite foi muito fria, fiz jeropiga.

-Décimo dia,quase pronto!

-Décimo segundo dia, já está na pipa, onde fica até Novembro. Que seja o que Deus e Baco quiserem!

Acho que Deus não gostou que eu invocasse Baco e o vinho avinagrou.

Não importa, este  ano tento de novo, com mais castas de uvas numa pipa maior e hei-de tentar as vezes que forem necessárias até que fique perfeito.

De qualquer das maneiras, fiquei com um vinagre do melhor que há e uma jeropiga de beber e chorar por mais, que nos aqueceu durante todo o Inverno, da qual não sobrou nem uma pinga para amostra.

Não vou fazer a figura triste de um produtor de vinho que conheci aqui em Trás-os-Montes, que fazia umas zurrapas que acabavam sempre em vinagre, mas que o seu ego desmesurado, que contrastava com seu tamanho rasteirinho, o fazia impingir em todos os jantares.

Abria a garrafa com todos os preceitos, demorava tempos infinitos a cheirar a rolha e servia o tal do vinagre. Não contente com isso, passava a noite, a fazer elogios ao vinagre que continuava intacto nos copos dos convidados e inchado como um peru recheado de caganças dizia:

– A menina já cheirou bem o meu vinho? Não é uma maravilha?

– Já cheirei e cheira muita bem não se pode é beber…Talvez a acompanhar uma salada…

Eu sei que beber vinagre resolve muitos males, mas ao jantar, dispenso!

Por isso sem peneiras, com a humildade que todos estes processos naturais requerem e sem voltar a invocar Baco, este ano, recomeço tudo de novo e se Deus quiser, lá para o Natal, a Ceia será regada com o único vinho que vale a pena beber, aquele que a uva dá!

 

Ana Rita

 

Autora

Ana Rita Bivar

Nasci por engano em Lisboa, onde trabalhei em restaurantes, lojas de decoração, eventos e como relações públicas. Fui para o Alentejo em busca de um sonho, mas foi em Trás-os-Montes que o realizei. Hoje, larguei os saltos altos e sou pastora e agricultora e vivo no lugar mais bonito do mundo, onde vejo as águias de cima e bebo a água que nasce nas fragas da montanha. Acredito profundamente na autossuficiência e que o mundo atingiu a sua perfeição máxima no século XIX, para onde pretendo voltar o mais depressa possível.

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Comentários(2)

  1. REPLY

    José Coutinho disse

    Gostei. Revi algumas situações que já vivi, e achei a escrita muito agradável e bonita.
    Felicidades para aproxima tentativa.

    • REPLY

      Ana disse

      Muito obrigado José. É sempre muito bom termos o feedback do que fazemos. Beijinhos

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