Lágrimas de crocodilo

felicidade_cortada

Querida Ana Rita,

Uma receita para a felicidade com nome de peluche!? Desculpa, mas cheira-me a esturro…

Detesto filosofias de vida impostas pelos Moisés deste mundo que, com a arrogância de quem foi iluminado por um rasgo de inspiração divina, desatam a escrevinhar uma série de ideias estapafúrdias como se fossem mandamentos. Leis escritas sobre a pedra para serem levadas à letra e cumpridas escrupulosamente, sob pena de estares a cavar a tua própria sepultura. Não. Não me convencem. Lamento. A receita para minha felicidade sou eu que a cozinho, com os ingredientes que tenho armário. Se está cheio, maravilha. Se está vazio, respiro fundo… Talvez até chore. Depois seco as lágrimas e de alma lavada sigo em frente, que do pouco se faz muito. Basta querer.

As lagrimas curam. Sabias? São poderosíssimas. Mesmo que sejam lágrimas de crocodilo.

Nesta reentre, que não foi tão atribulada como a tua, tive a prova provada. Onde? Precisamente esta manhã, à porta do colégio dos meus filhos quando estava à conversa com outras mães. Um momento raro. Andamos todas num virote. Não é fácil despachar os miúdos, enfrentar o trânsito e chegar ao trabalho a horas. Mas hoje foi diferente. Foi daqueles acasos que não acontecem por acaso. Umas estavam de folga, outras entravam mais tarde. Enfim, tivemos direito a uma pausa para balanço. E que balanço…

Uma das mães, a Gui, contou-me que se tinha divorciado este Verão. Juro-te que me caiu o mundo aos pés. Sabes aqueles casais que parecem viver num conto de fadas!? Que transpiram tanto amor, mas tanto, que se a Rainha das Neves os conhecesse ficava de coração derretido? Pois assim eram eles. Ou pareciam. Sem saber o que dizer, fiquei calada. E ainda bem. Não precisei de abrir a boca. Ela falou por mim: “Nem imaginas… Estou óptima. Estafada, mas óptima. Tinha três filhos, passei a ter dois. Livrei-me de um eterno Peter Pan. Ele não era um marido, era um emprego. Ai filha, não! Além do mais, não nasci para ser sopeira de ninguém. Claro que trabalho que nem uma louca. Só entra um ordenado e a pensão dos miúdos é arrancada com lágrimas de crocodilo. Tirando isso, estou óptima. É tão bom não gostar de ninguém. Gosto de mim e dos meus filhos e chega bem para mim. Soube que ele já arranjou outra e tudo. Acho que vou enviar um ramo de flores à fulana, para lhe agradecer o favor que me fez!” De facto, como a Fénix, a Gui tinha renascido das cinzas. Estava leve, fresca e fofa. Giraaaa e magraaaa… Estupenda.

Estávamos nós nesta galhofa de chorar a rir, quando a São, outra mãe divorciada, aparece e se sai com está: “Gui não me fales em flores que me fazes lembrar as vespas. Ainda não vos contei? Como é possível!? Este Verão tive um problema dos diabos. Tudo porque os estafermos de umas vespas asiáticas resolveram fazer ninho nas minhas águas furtadas, precisamente entre as telhas e o tecto. Mas um ninho gingante, não estão bem a ver!? Até já tinha medo de entrar em casa com a miúda. Calculem que elas conseguiram furar o pladourd e entrar dentro de casa. Invadiram-me a sala, os quartos, tudo… Para onde quer que me virasse, havia uma sempre uma vespa à espreita e pronta a atacar ZZZZ.  Ainda tentei ver se resolvia o problema com a ajuda dos vizinhos, mas lavaram daí as mãos. Claro. O enxame não se tinha instalado na casa deles! Sem saber como havia de correr com aqueles monstros e sem dinheiro para contratar uma daquelas empresas que tratam das pragas, liguei para a Câmara Municipal e pedi ajuda. Tanto os chateeie que lá mandaram vir uns cinco ou seis GhostBusters em versão apicultor. Subiram ao telhado, dois minutos depois desceram com uma novidade hilariante, no mínimo: Minha senhora lamentamos mas não podemos retirar o ninho do telhado, disse o maioral. Se fossem abelhas tratávamos já do assunto, como são vespas não lhes podemos tocar. São ordens superiores! Quando oiço isto, desato aos soluços num pranto interminável…”

Não era para menos, não achas? Abelhas, vespas. Vespas, abelhas. Qual é a diferença afinal? Têm ferrões e quando ferram é a doer. Pois! Não tentes entender o motivo destas ordens absurdas que eu também não. É uma perda de tempo e de energia. Bem…

Segundo a São, o homem lá se deixou convencer. Voltou a subir as escadas com a pandilha toda atrás e conseguiu extreminar as criaturas todos. Todinhas. Só sobrou o ninho, que o GhostBuster maioral fez questão de mostrar para provar a sua eficácia e, como quem não quer a coisa, apalpar terreno. Sim. Ver ser pegava. Todo ferrado, em chaga, sacou do bolso dois bilhetes para um concerto e convidou-a para sair.  Ela recusou, como é óbvio: “Imaginem… Eu sair com um extreminador implacável. Nunca na vida. Não tenho a ambição de me tornar uma enciclopédia ambulante sobre de baratas, formigas pulgas e afins. Já apanhei com as vespas. Menos, sim!?Meninas, chorei lágrimas de crocodilo. Disse-lhe que por causa das malditas vespas andava a sofrer de terrores nocturos e a ter pesadelos pavorosos, onde me via a viver com a minha filha debaixo do Aqueduto das Águas Livres.”

Foi uma conversa breve. Não havia tempo para mais. Elas seguiram a sua vida e eu segui a minha, com um sorriso na cara e mais uma história para contar. Tão bom…

A vida é como é : Feita de sangue, suor e lágrimas poderosíssimas. E que ninguém se atreva a impingir-me regras ou receitas para a felicidade. Não! Pelo menos enquanto conseguir fazer do pouco muito. Tanto. Sou uma felizarda…

Filipa

Autora

Filipa Serejo

Não foi por acaso que nasci em Lisboa, quanto mais conheço o mundo menos me imagino a morar noutro lugar. Tenho uma família linda, amigos maravilhosos e uma vida profissional preenchida. Sou jornalista. Também larguei os saltos altos por causa dos miúdos, mas continuo a ser fã de sapatos, roupa bonita e gente gira. Adoro o século XXI porque o presente é o momento certo. Desisti de correr atrás da perfeição. Colho simplesmente o que a vida me dá. Sou feliz assim e ponto.

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