A psicóloga com deficit de tudo e os tambores de guerra

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Querida Filipa

Não fiques tão escamada com o estilo de vida “Hygge”que o Moisés nem sequer era Dinamarquês era Judeu e não deve ter tido uma vida nada feliz… Apesar de ser a minha cara, nunca me passaria pela cabeça impingi-la a ninguém. Porque todos temos dias menos felizes, a vida deve ser encarada de uma forma simples, mas jamais simplista, com o risco, de que se não o fizermos, acabamos a pagar uma renda a um psicólogo para nos aliviar a consciência e ensinar a esconder o que nos incomoda debaixo do tapete. E isso minha querida, é que nem pensar!

A propósito de psicólogos, já reparaste que todos os anos é o mesmo fungágá?  Caiem de pára-quedas psicólogos em todas as escolas do país. Pois é, neste país, não há nada, mas há psicólogos!

Poderia se esperar, que já que se esquecem de Trás-os-Montes por tudo e por nada, que ficássemos de fora deste programa com contornos de Republica Popular da China, mas como a missão destes psicólogos é a formatação, não lhes podíamos escapar.

Ou seja, para dar à luz crianças transmontanas, estamos à vontade; com a ambulância em movimento, com a ambulância parada no meio da estrada, à beira do rio Douro, numa gruta, é como quiserem, agora, para os educar, a coisa pia mais fino e tem de vir um psicólogo.

E é vê-los chegar lá da cidade, contrariadíssimos por terem sido colocados em Trás-os-Montes, quase a precisarem de outro psicólogo, por sofrerem da fobia de que estão a ser perseguidos para levarem um castigo tão grande.

Estacionado o carro do tamanho de patim que trazem lá da Babilónia e passado o choque inicial, começam a ser possuídos por um sentimento de missão. Sim, de missão! Semelhante ao dos primeiros colonos que chegaram a África ou ao dos Jesuítas quando chegaram ao Brasil e viram os primeiras tribos da Amazónia.

Respiram fundo e organizam-se para as primeiras reuniões, baseados em dados que poderiam ter sido fornecidos pelo José Cid:

– Transmontano- Criatura humilde das berças que não toma banho, que se alimenta de forma pouco saudável, de enchidos fumados à lareira, de queijo de leite não pasteurizado e ovos de galinhas felizes, proibidos pela A.S.A.E. São um caso de saúde pública! Precisam desesperadamente de ser guiados por um psicólogo e pelo Estado!

É o dia da apresentação, as mães juntam-se à porta da sala de reuniões e dá-se início à mais longa e penosa travessia da vida do psicólogo.

– Estranho…. Estas mães não têm bigode…Vendo bem, até têm melhor aspecto do que eu. Deve ser para disfarçar a miséria, só pode. Vou iniciar a conversa com termos caros de psicologia que elas nunca ouviram falar, para as testar…

– Berléubéubéu pardais ao ninho…O psicossomático… cognitivismo… os mecanismos do individuo… transferências psicoafectivas e por último, mas não o menos importante, TARAMMM…trabalho no desenvolvimento das capacidades e necessidades das crianças com dificuldades de aprendizagem, como no caso da Desordem por deficit de atenção com hiperactividade!

Mas espera lá, isto da hiperactividade não está mais que provado de que é falso, que foi mais um embuste da indústria farmacêutica, tal como o flúor? Então por favor expliquem-me porque ainda faz parte da agenda da educação?

Em 2014 foram vendidas trezentas mil embalagens de  Ritalina e em 2015, as crianças portuguesas até aos 14 anos estavam a consumir mais de cinco milhões de doses diárias de metilfenidato,  (princípio activo da designação comercial de Ritalina). Em Portugal estão neste momento, centenas de miúdos sob o efeito de Ritalina, a droga, que resolve aos adultos o falso problema da hiperactividade e que deixa mazelas para a vida inteira nas crianças.

Quem, no seu perfeito juízo aguentaria ouvir quieto e calado, sem poder ir à casa de banho ou beber água, durante noventa minutos, um chorrilho de informações que não interessam nem ao Menino Jesus? Ninguém! Muito menos uma criança.

A psicóloga, perante o silêncio da plateia, continua-se a esticar, mas desta vez, já com o hino da China como música de fundo e voz de megafone.

– Há aqui crianças que precisam de ser trabalhadas e intervencionadas, porque mostram uma certa resistência a trabalhar em grupo e acatam com dificuldade as regras que lhes são impostas. Sabendo nós, que a empregabilidade está cada vez mais difícil, devem ser intervencionadas de imediato para que não desenvolvam características que no futuro as vão prejudicar no emprego.

Neste momento, a sala começou a tremer e ouviram-se tambores a ressoar. Era um grito de guerra que ecoava dentro de cada mãe!

Até que alguém interrompeu o tremor e disse:

– Discordo completamente! O meu filho está na escola para aprender as matérias , mas principalmente, para crescer como Ser Humano, com sentido de liberdade e justiça e não, não estou nada preocupada que o meu filho se torne num “bom empregado” porque esse termo é perigoso e pode ter muitas interpretações diferentes.

A psicóloga hesitou, mas as palavras fugiram-lhe da boca como balas:

– Só se o seu filho for rico!!!

E disse tudo. Nos países pobres de uma mesma UE, a agenda da educação pretende fomentar a obediência. Já nos países mais ricos, as crianças estão a  ser educadas a terem iniciativa, criatividade e qualidades de chefia.

Este foi apenas o primeiro round, mas como a história se repete todos os anos, posso já te adiantar o seu desfecho.

Doravante, a psicóloga nunca mais vai arriscar reuniões com todos os pais, vai estudar cada ficha de cada aluno, ao pormenor, espiar os miúdos no recreio que brincam descontraidamente e que acham que ela é maluquinha. Em seguida, vai escolher os núcleos familiares mais vulneráveis e vai chamá-los um a um à escola. Vai-lhes dar um nó na cabeça, até que um pai esgotado do trabalho no campo, vai perder a paciência e vai ameaçar a sua integridade física. A GNR,  vai  ser chamada para proteger a psicóloga que entretanto violou a integridade de uma família inteira. Vão lá estar exactamente uma semana a fingir que a protegem do transmontano selvagem e tresloucado, que entretanto é um parente querido de todos eles.

Seguir-se-á um longo e frio Inverno. A psicóloga,começará a adiar os banhos nas manhãs cinzentas em que termómetro marca -7ºC. As roupas já não condizem por cores e padrões mas por espessura, o carro do tamanho de um patim sucumbe à primeira geada e de manhã, ao pequeno- almoço substitui, a “saudável” peça de fruta envernizada e a tigela de cereais transgénicos por um pedaço suculento de toucinho fumado de um porco assassinado a sangue frio e um copo de vinho para aquecer.

Num dia de nevão descomunal em que a vila ficará isolada e sem luz, escreverá uma carta à mão a reportar os seus resultados para a capital. E à luz da vela, com um cobertor às costas, escreverá assim:

“ Peço desculpa por não pôr a data, mas aqui perdi a noção do tempo…Ainda falta muito para me ir embora? Os transmontanos são uma gente irascível, selvagem, acreditam que são independentes e que têm direito de escolha. Apesar do calor e do frio, trabalham todos os dias, com temperaturas inacreditáveis e as crianças brincam na rua até tarde, em vez de estarem agarradas a um computador, que tanta cultura lhes podia dar, ouvi até dizer que há aldeias sem sinal de telefone e internet. São tão atrasados que quase não vêm televisão e por isso não se apercebem da importância do governo e dos políticos…cof…cof… Não posso fazer mais do que fiz…não sei o que se passa com esta gente porque não reage a estímulos que deveriam provocar reacções previsíveis. Desisto! Quero me reformar prematuramente, assim pode ser que ainda tenha futuro na política na Republica Popular da China ou em Portugal.

PS: Venha-me buscar, que o meu carro congelou

ASS: Psicóloga de serviço”

E a esta, outros se seguirão e desfilarão sem deixar marca na vida desta gente tão cheia de Liberdade.

Sugiro que mandem antes uma parteira, porque estamos completamente sozinhos e aqui, há mais crianças para nascer do que para formatar.

 

Ana Rita

 

 

 

Autora

Ana Rita Bivar

Nasci por engano em Lisboa, onde trabalhei em restaurantes, lojas de decoração, eventos e como relações públicas. Fui para o Alentejo em busca de um sonho, mas foi em Trás-os-Montes que o realizei. Hoje, larguei os saltos altos e sou pastora e agricultora e vivo no lugar mais bonito do mundo, onde vejo as águias de cima e bebo a água que nasce nas fragas da montanha. Acredito profundamente na autossuficiência e que o mundo atingiu a sua perfeição máxima no século XIX, para onde pretendo voltar o mais depressa possível.

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