Um Conto de Natal

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Querida Ana Rita,

E de repente faz um ano que trocamos estas nossas mensagens!

O tempo passa a voar, tão depressa que quando damos conta é Natal. Outra vez…

Vou-te contar um segredo: Fui assombrada pelo Espírito dos Natais passados. Ainda estou para saber por que carga de água me veio visitar, logo a mim que sou pouco dada a saudosismos, toda voltada para o presente, e absolutamente contra o consumismo desenfreado e a hipocrisia que caracteriza esta época do ano.

Chovia que Deus a dava e fazia um frio de rachar.

Resolvemos ficar em casa a fazer a árvore de Natal. Pedi um escadote à vizinha do lado, trepei os degraus todos e tirei as caixas de cartão do armário onde guardo toda uma parafernália de bolas, renas, bonecos de neve, Pais-Natal e afins.

Depois de ter posto a árvore de pé e travado uma batalha campal com os nós cegos que tinham atacado a iluminação, fui preparar chocolate quente à cozinha enquanto os miúdos abriam caixa atrás de caixa, encantados com os enfeites. Fizeram vários Natais, mas não importa. Aos olhos do Pedro e do Manel eram novos em folha.

– Mano! Olha esta Rena…

– Manel, já viste este Pai-Natal.

– Encontrei a Estrela! Tão linda…

Como já não são propriamente bebés, dei-lhes rédea solta.

– Este ano a árvore de Natal fica por vossa conta. A mãe fica sentadinha no sofá e os meninos tratam de pendurar os enfeites onde muito bem entenderem. Se precisarem de ajuda, estou aqui.

Ficaram histéricos e eu babada:

– Os meus dois amores…

Sentada no sofá, com uma chávena quente nas mãos e as pernas cobertas por uma manta fofa, vieram-me à cabeça lembranças de outros Natais.

O bacalhau de molho. O peru afogado no alguidar. O Senhor Manel do talho a tocar à porta com o cabrito às costas. A azáfama na cozinha porque ceia que é ceia não se compra, cozinha-se em família. As filhoses a fritar em óleo quente. O cheiro doce a açúcar e canela. Os ovos moles de babar. As rabanas em calda. A mesa da sala. Enorme e coberta por um toalha de linho branco. Imaculada. O serviço de porcelana da minha bisavó. Sempre. O faqueiro de prata. Os copos de cristal que reflectiam a luz das velas. O centro de mesa feito com pinhas e azevinho que íamos buscar à Dona Marta. Uma simpatia. O presépio da minha mãe com dezenas de figuras em miniatura. Simplesmente encantador. A minha avó a comandar as tropas sentada na poltrona. Velhinha com cabelo cor de neve. Os sonhos devorados às escondidas no quarto da empregada. A música a tocar baixinho. O meu pai. Volta e meia passava pela cozinha e discretamente roubava um punhado de pinhões comprados ao peso no Senhor Barata. A coroa gigante pendurada na porta a dar as boas vindas. A campainha a tocar. Tocar. Os tios, os primos. Havia sempre lugar para mais um e nunca treze pessoas à mesa. Não dava sorte, ouvia dizer. Pelo sim, pelo não…

– Mãeeeeee! Mãeeeeee! Estás a dormir de olhos abertos?!

– Desculpa filho. Conta…

– Ficou linda a nossa árvore de Natal!

Ajeitei a manta e engoli em seco:

– Maravilhosa!

Filipa

Autora

Filipa Serejo

Não foi por acaso que nasci em Lisboa, quanto mais conheço o mundo menos me imagino a morar noutro lugar. Tenho uma família linda, amigos maravilhosos e uma vida profissional preenchida. Sou jornalista. Também larguei os saltos altos por causa dos miúdos, mas continuo a ser fã de sapatos, roupa bonita e gente gira. Adoro o século XXI porque o presente é o momento certo. Desisti de correr atrás da perfeição. Colho simplesmente o que a vida me dá. Sou feliz assim e ponto.

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