Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro!

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Querida Filipa,

Que é feito de ti?Eu sei que a vida nessa Babilónia pode ser uma correria desenfreada, mas estás proibida de deixar de dar noticias ouviste?

Por cá, já se instalou o frio, a chuva, o gelo e tudo o que o Inverno traz. As ruas estão desertas e sair com as ovelhas aqui, não deve ser muito diferente do que sair com as ovelhas em “Winterfell”. Se já se vive num isolamento que poucos aguentariam, com os dias frios e curtos, passámos num ápice, a eremitas!

Mas no outro dia, fui a um evento que veio romper o silêncio das montanhas que me cercam; o “Encontro Nacional de Troca de Sementes”!

Não fazia a mínima ideia ao que ia. Tudo era possível.

Desde um encontro de três gatos-pingados, que tratam de um punhado de vasos numa varanda em Loures, passando por mais uns amigos da Mortágua disfarçados de associação ambientalista ou simplesmente, uns bem intencionados que gostam de passear pelo Interior do país, comer bem, conhecer gente nova, tendo como pretexto a troca de sementes.

Nada disso.  O encontro foi estrondoso!

Juntou para lá de cem pessoas do país inteiro. De todas as idades, todas diferentes, mas todas com um objectivo comum, a Soberania Alimentar!

Naqueles dias, assisti a palestras interessantíssimas, que vieram confirmar aquilo que eu tenho testemunhado desde que vim para Trás-os-Montes.

As raças autóctones são as únicas que sobrevivem pacificamente nesta geografia caótica, com temperaturas da Idade do Gelo e do Inferno.

O antigo olival transmontano, deveria ser considerado “Património da Humanidade” , por dele sair um azeite com carácter e vida própria, tão diferente do dos olivais que usam variedades novas por causa da maldita produtividade…

Aprendi que a fruta e os legumes, em 1950, tinham três vezes mais nutrientes do que têm hoje em dia, devido à manipulação e escolha de variedades mais produtivas e ao desgaste do solo, o qual se exige que produza em modo intensivo, sem devolver nada à terra.

E finalmente, confirmei, que as plantas, tal como nós e os animais, sentem e comunicam entre si e que as pragas, são soluções perfeitas, que a natureza encontra para problemas criados pelo Homem, que não são eficazes só, porque o Homem a desequilibrou.

Não te consigo descrever o avassalador que é ouvir isto num auditório cheio de gente que fez quilómetros para ali chegar. Finalmente ter a confirmação que a minha intuição estava certa.

O empolgante que é, trocar conhecimento e informações verdadeiramente úteis com pessoas tão diferentes, mas tão iguais a nós, que chegaram ali, por  outros mil caminhos e que sem pertencerem a nenhum grupo organizado, convergem todos, como por milagre, para o mesmo objectivo.

O reconfortante que é, ver o meu filho brincar e falar com crianças que estão a ser educadas com os mesmos valores e as mesmas prioridades.

Na Vila, há uma senhora que é considerada um ícone da cozinha desta região. Mais respeitada é impossível! Fez a sua vida entre a cozinha e a Igreja, não se lhe conhecem vícios, nem rabos-de-palha. E todos os anos, lá está, com a sua barraquinha, a vender uns bolinhos de amêndoa com feitio e cor de cereja, segura do seu lugar no topo da pirâmide desta vila.

Mas um miúdo que estava no encontro das sementes, com uns caracóis desgovernados e os olhos brilhantes como os do meu filho Salvador, dizia-lhe:

– Não vás ali. Ali só vendem porcarias. Estás a ver aquelas cerejas? São bonitas não são? Mas estão cheias de corante. A velha disse que eram de amêndoa, mas a amêndoa é branca. Fui-lhe perguntar o que lhes tinha posto para terem aquela cor, “Groselha!” disse ela. Groselha? Ah! Não te enganes, não é fruta, são aquelas garrafas cheias de corante. E também tem lá uns bolos verdes, o que terá lá posto?

E pronto, foi o suficiente para os miúdos passarem o resto do dia a olharem de lado para a barraquinha da senhora mais respeitável da Vila. Na cabeça deles, uma perigosa envenenadora de crianças e traficante de corantes, quase tão perigosa como a bruxa da Branca de Neve, que ficou famosa, por oferecer maçãs envenenadas.

O que me faz acreditar que nem tudo está perdido e que as pirâmides tal como tudo o resto, também estão prestes a ruir.

Quando chegou o momento de trocar as sementes, que estavam espalhadas em mesas, dentro de pacotinhos minúsculos, foi a loucura!

Imagina-te numa loja de sapatos lindos, únicos, todos do teu número e em exposição e agora imagina poder levar os que quiseres. Foi assim que eu me senti rodeada de tantas sementes, de variedades tão raras, semeadas por tanta gente, mais rara ainda.

O encontro chegou ao fim, começámos a dispersar com o gosto amargo de não saber se nos encontraríamos de novo. Cada um de nós, ia voltar para a sua luta solitária de guardião, tentar salvar as sementes de um mundo que entrou em colapso.

Um bando de loucos e românticos, que ninguém sabe onde estão ou quem são, mas que juntos teriam o poder de mudar o mundo…

Já em casa, numa noite gelada, com a lareira acesa, o meu cão, o Leão, aos meus pés e a gata a ronronar no sofá, passámos a noite a catalogar e a contar as sementes. O meu filho Salvador, contava, eu rotulava e o Zé registava no inventário de Valle Flor, a nossa quinta, para onde em breve iremos viver.

Por momentos parei, olhei para todos aqueles frascos de sementes e realizei que nunca me senti tão rica, nem tão privilegiada. De repente, acreditei que ainda era possível mudar o mundo, reverter esta queda lenta para o abismo, se nos tornássemos todos guardiães da Vida.

Adieei os meus pensamentos. Ainda não é Hora de semear.

 

Ana Rita

 

 

Autora

Ana Rita Bivar

Nasci por engano em Lisboa, onde trabalhei em restaurantes, lojas de decoração, eventos e como relações públicas. Fui para o Alentejo em busca de um sonho, mas foi em Trás-os-Montes que o realizei. Hoje, larguei os saltos altos e sou pastora e agricultora e vivo no lugar mais bonito do mundo, onde vejo as águias de cima e bebo a água que nasce nas fragas da montanha. Acredito profundamente na autossuficiência e que o mundo atingiu a sua perfeição máxima no século XIX, para onde pretendo voltar o mais depressa possível.

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